ILMA. PROFESSORA CRISTINA P.S. BASTOS
M.D. COORDENADORA DO CURSO DE GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
UNOESC/CHAPECÓ
Desde os anos colegiais que nutro um profundo interesse por Filosofia e Psicologia. Percebi, logo no início de minha formação em Homeopatia, a grande afinidade da Medicina Homeopática com a Psicologia Clínica. Sendo assim, na qualidade de médico homeopata, venho propor à sua apreciação a idéia de se estabelecer um intercâmbio acadêmico informal entre este curso de graduação e os princípios de Homeopatia Unicista. Para servir de algum nexo à esta singela proposição, passo a formalizá-la com uma breve argumentação pessoal e de literatura concernente. Perdoe-me se este escrito tiver a aparência descuidada e petulante de um projeto para curto ou médio prazo.
Há muito tempo pleiteio manifestar esta idéia, porém não o fiz porque sei que seria prematura, antes que minha prática profissional me oportunizasse algum respaldo para uma exposição de tamanha responsabilidade. Aventuro-me com algumas páginas complementares porque sinto que não ficaria bem apresentar-me de mãos vazias, sem conteúdo. É o mínimo de respeito e admiração que posso demonstrar pelo corpo docente e discente do Curso de Psicologia. Em anexo, estou lhe enviando alguns trabalhos de minha autoria, que possam contribuir para uma melhor compreensão da proposta – asseguro-lhe que isenta de qualquer intencionalidade marketeira auto-promocional.
Encontro-me à sua inteira disposição para eventual contato, caso o material desperte algum interesse em seu corpo docente.
Respeitosamente,
Demerval Florêncio da Rocha
Médico Pediatra – Homeopata
Chapecó, 27 de março de 2000.
PROPOSIÇÃO: INTERCÂMBIO ACADÊMICO ENTRE HOMEOPATIA UNICISTA E O CURSO DE GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA DA UNOESC/CHAPECÓ
INTRODUÇÃO
"Trazem-me à consulta um menino de 11 anos com um quadro de diarréia crônica resistente a todos os tratamentos instituídos. Acometiam-lhe cólicas violentas com grandes descargas de gases, espasmos e tenesmo doloroso, náuseas, eructações ruidosas e calorões afebris. Seu aspecto era impressionante pelo emagrecimento, a palidez citrina, anêmica e o facies ansioso. A menor excitação lhe provocava um surto diarreico até ao ponto de haver deixado de ir à escola. Antes de entrar no consultório, havia ido duas vezes ao banheiro. Tinha vertigens quando chegava a uma recepção ou ficava no meio de uma multidão ou grupo de pessoas. Tinha grande apetite por doces, que consumia vorazmente, não obstante a dispepsia flatulenta que lhe provocava. Era marcadamente calorento, com sufocação ao menor excesso de roupa e seu sono era tão agitado por terrores noturnos como o desassossego e a inquietude ansiosa que mostrava durante o dia.
"Seu pai, coronel do exército, o considerava retardado mental e o submetia a uma severa disciplina. Dizia-lhe que era um idiota e que não conseguiria jamais chegar a nada. O menino foi assim desenvolvendo um sentimento de fracasso e impotência, que se manifestava em todo o seu jeito de ser. Não podia estudar, concentrar-se ou realizar o menor esforço mental sem padecer fortes dores de cabeça, que terminaram por tirá-lo da escola, dando margem a que seu pai se afirmasse na crença de que seu filho era deficiente mental.
"Era evidente que um sentimento insuperável de fracasso se havia apoderado deste pobre menino, derivando na colite diarreica e emagrecimento conseqüente à paulatina, porém inexorável destruição de sua personalidade.
" O diagnóstico terapêutico foi dado pela síndrome psicológica, integrada com os seguintes sintomas mentais e gerais: ansiedade por antecipação, acrofobia, agorafobia, diarréia por excitação, desejo incoercível de açúcar e piora pelo calor. Com estes seis sintomas foi fácil encontrar seu
medicamento similimum em Argentum nitricum, que curou radicalmente o paciente, resistente a toda medicação dirigida aos fenômenos físicos, que tampouco teve em conta os fatores desencadeantes essenciais de uma situação psicológica que, incidindo em uma constituição biológica predisposta, permitiu compreender o drama deste pequeno torturado.
"Em oito meses de tratamento aumentou 14 kg de peso, retomou seus estudos com êxito e, cinco anos depois, apresenta-se a saudar-me um jovem de 16 anos, alto e bem composto, com a alegria do triunfo refletida no rosto, totalmente diferente de outros tempos; eximiu-se dos exames escolares com as melhores notas.
"Este caso simples e corrente da clínica diária é só mencionado como exemplo de um enfoque clínico que postula o quê no enfermo deve ser curado e não a mera solução expeditiva do problema patológico. Porque em todas as situações, mesmo nas grosseiramente lesionais ou nas que resulta óbvia a intervenção cirúrgica ou a terapêutica puramente química, o médico não poderá permanecer tranqüilo em sua consciência até que não haja percebido o transfundo psicodinâmico da patologia celular de seu enfermo, em uma visão clínica biográfica total, que lhe permita compreender o gênio mórbido desse caso singular, inédito e pessoal.
"Na clínica, a tendência das idéias médicas tem oscilado entre os extremismos polares do patologismo materialista e o psicologismo a outrance, porém todo clínico de ponderada experiência sabe que a patologia acadêmica não consegue abranger a realidade do paciente em sua dimensão plena e que uma profunda formação psicológica é absolutamente indispensável para captar os valores sintomáticos imponderáveis do estado anímico. Porque o ser humano não é uma máquina biológica, senão um organismo dotado de razão e capaz de emocionar-se por puras representações ideativas; por isso sua adaptação ao ambiente adquire um caráter especial entre os fenômenos naturais que o fazem um todo em processo de adaptação intencionada com suas circunstâncias."
PSICOLOGIA NEWTONIANA
O caso citado foi extraído da obra de TOMÁS PABLO PASCHERO, um homeopata argentino monumental, um dos maiores expoentes mundiais da clínica da similitude, que em 1986 deixou nosso convívio para entrar na galeria dos imortais. Milhares ou milhões de outros relatos da vasta casuística homeopática franqueiam a qualquer acadêmico de psicologia a escandalosa intimidade entre a ciência de WILHELM WUNDT e a de SAMUEL HAHNEMANN. Entre a Psicologia e a Homeopatia, qualquer semelhança extrapola em muito a mera coincidência. Embora cada uma tenha sua história, seu próprio método semiológico e terapêutico e possa ser alvo de sua episteme em particular, ambas têm um objeto em comum: a harmonia do ser humano, no sentido mais integralizador possível. Mas é, por outro lado, no estabelecimento e na compreensão das diferenças, que as afinidades tornam-se inda mais avassaladoras. As diferenças é que lhes podem configurar o caráter de complementariedade recíproca ou de compatibilidade pouco improvável.
A Homeopatia nasceu como uma subversão à medicina racionalista-mecanicista-reducionista dominante até hoje. Embora alguns "contra-revolucionários" profanizem os princípios hahnemannianos, tentando reenquadrá-la no paradigma galênico (alopático), a homeopatia tem honrado a memória de seu mentor ao longo desses 200 anos de existência. Já a Psicologia não foi concebida nem evoluiu dentro de uma proposta holística. Sua origem está ligada ao fracasso da medicina galênica em abordar os distúrbios mentais. Foi, portanto, uma concessão histórica da incompetência da doutrina de Esculápio, e por isso se norteia pelo mesmo paradigma da Medicina. Não foi uma reação ao aforismo vigente, antes usara-o para a consecução dos objetivos a ela ardilosamente atribuídos. Nasceu sob uma premissa equivocada.
A Psicologia Moderna ainda está subjugada pelos aforismos cartesianos, atrelada aos princípios da mecânica clássica – a física newtoniana. Salvo algumas correntes contemporâneas, que logram conquistar um espaço que lhes é merecido, FRITJOF CAPRA (O Ponto de Mutação – 1982) pondera firmemente acerca da dominância do modelo citado na psicologia em geral. É sobre a tese desse autor que vamos discorrer a seguir, folheando algumas páginas da história da psicologia como ciência. Vamos nos ater aos capítulos 4,5,6,9,10 e 11 de CAPRA, o qual deveria ser de leitura obrigatória para todos os que se envolvem com alguma ciência, quer por lazer ou visando a inserção no mercado de trabalho. Creio óbvio que tais colocações sejam de pleno domínio do professor de psicologia, mas quiçá desperte alguma curiosidade adicional no neófito.
Para JOHN LOCKE (Grã-Bretanha, 1632-1704), no nascimento, a mente humana era uma tabula rasa, na qual as idéias eram gravadas através das percepções sensoriais. Essa noção serviu de ponto de partida para uma teoria mecanicista do conhecimento, na qual as sensações eram os elementos básicos do domínio mental, combinando-se em estruturas mais complexas pelo processo de associação. O conceito de associação representou um passo significativo no desenvolvimento da abordagem newtoniana da psicologia, uma luz que permitia aos filósofos reduzir a complexidade do funcionamento mental a certas regras elementares.
Aqui o leitor pode arrazoar: "a evocação acima apenas pertence à história da psicologia, porém não faz mais história na psicologia vigente." Mas é onde o leitor se engana. Mais adiante vamos demonstrar que a noção acima ainda é a que norteia a praxis psicológica atual.
DAVID HARTLEY (Grã-Bretanha, 1705-57) deu mais um passo adiante ao combinar o conceito de associação de idéias com o de reflexo neurológico para desenvolver um detalhado e engenhoso modelo mecanicista de mente em que toda a atividade mental foi reduzida a processos neurofisiológicos. Este modelo foi incorporado ao trabalho de WILHELM WUNDT (Alemanha, 1832-1920), geralmente considerado o Pai da Psicologia Científica.
A psicologia moderna foi o resultado dos avanços em anatomia e fisiologia no século XIX. Em conseqüência desses avanços, os engenhosos, mas simplistas, modelos mecanicistas descritos por RENÉ DESCARTES (França, 1596-1650), JULIEN OFFROY DE LA METTRIE (França, 1709-1751) e HARTLEY foram reformulados em termos modernos, e a orientação newtoniana estabeleceu-se decididamente na psicologia. Por esta ocasião esta ciência já era a tal ponto reducionista, que alguns entusiasmados chegavam a postular que o comportamento humano pode ser reduzido a um conjunto de faculdades ou traços mentais independentes, localizados em regiões específicas do cérebro. É nesse "trem da alegria" fisiologicista que desponta a reflexologia de IVAN PAVLOV (Rússia, 1849-1936), de impacto decisivo sobre as subseqüentes teorias de aprendizagem. Antes deste veio a célebre lei de WEBER-FECHNER (ERNST HEINRICH WEBER, Alemanha, 1795-1878 e GUSTAV THEODOR FECHNER, Alemanha, 1801-87), que sentencia uma relação matemática entre a intensidade das sensações e seus estímulos.
Essas teorias reducionistas e materialistas dos fenômenos psicológicos suscitaram resistência entre os psicólogos que enfatizavam a natureza unitária da consciência e da percepção. Começa-se a vislumbrar uma luz no fim do túnel, uma esperança de se deter o curso das posições dominantes até então, através da concepção sistêmica da mente. Era o surgimento de duas escolas de orientação holística: o Gestaltismo e o Funcionalismo. Nem uma nem outra foi capaz de mudar a direção newtoniana seguida pela maioria dos psicólogos do século XIX e início do séc. XX., mas ambas influenciaram fortemente as novas tendências que despontaram na segunda metade da centúria atual.
Embora de amplo domínio acadêmico (ignoramos seu grau de penetração na prática clínica), a psicologia gestaltista de MAX WERTHEIMER (Alemanha, 1880-1943) nos parece empolgante por basear-se no pressuposto de que os organismos vivos não percebem as coisas em termos de elementos isolados, mas em termos de gestalten, ou seja, totalidades significativas que exibem qualidades ausentes em cada uma de suas partes individuais. Este axioma reflete muito bem as bases vitalistas que regem a medicina homeopática.
Quanto ao Funcionalismo, seu principal expoente foi WILLIAM JAMES (EEUU, 1842-1910), que criticou vigorosamente a tendência de seus contemporâneos de analisar a mente em elementos atomísticos; pelo contrário, enfatizou a unidade e a natureza dinâmica da "corrente de consciência". Foi um entusiástico defensor da interação e interdependência entre corpo e mente. Para ele a consciência é um fenômeno pessoal, integral e contínuo.
Importa não passar em branco que o desenvolvimento da Medicina Psicossomática (MPS) deu-se no bojo das alocuções desse cientista americano. Embora represente um certo avanço em relação ao patologismo analítico vigente, a MPS, declarando-se uma escalada para o neohipocratismo, foi ganhando terreno meio a um quase proposital alijamento da homeopatia, esta que sempre foi o protótipo da moderna configuração da verdadeira medicina hipocrática. No início da década de 1930 a emergente indústria farmacêutica, sentindo-se ameaçada pela rápida expansão dos ideais homeopáticos, achou por bem patrocinar uma modalidade clínica menos distante do reducionismo, como é a MPS.
Retornando ao tema central, eis uma das mais elucidativas passagens do monumental Princípios de Psicologia de James: "Nenhuma descrição do universo, em sua totalidade, pode ser definitiva se deixar inteiramente ignoradas essas outras formas de consciência. A questão é: como olhar para elas? ... De qualquer forma, elas impossibilitam o nosso prematuro encerramento de contas com a realidade."
Assim como a homeopatia foi parcialmente subjugada pela dicotomia da MPS, também essas duas recém-citadas e alvissareiras correntes psicológicas holísticas foram logo intimidadas por duas outras poderosas escolas: uma francamente reducionista – o Behaviorismo – e a outra, embora mais totalizadora, não conseguiu se desvencilhar do modelo newtoniano de realidade: é a Psicanálise.
O Behaviorismo representa a culminação da abordagem mecanicista em psicologia. Baseados num conhecimento detalhado da fisiologia humana, os behavioristas criaram uma "psicologia sem alma". Os fenômenos mentais foram reduzidos a tipos de comportamento, e o comportamento, a processos fisiológicos governados pelas leis da física e da química. A tendência geral da perda gradual de interesse pela consciência e da adoção de pontos de vista estritamente mecanicistas, os novos métodos da psicologia animal, o princípio do reflexo condicionado e o conceito de aprendizagem como modificação do comportamento, tudo isso foi assimilado pela nova teoria de JOHN WATSON (EEUU, 1878-1958), a qual identificou a psicologia com o estudo do comportamento. Este americano chegou ao cúmulo de afirmar: "O homem é um animal diferente dos outros animais somente nos tipos de comportamento que exibe." Esta sua outra diretiva - "A psicologia, tal como o behaviorista a vê, é um ramo puramente objetivo, experimental das ciências naturais, e necessita da consciência tão pouco quanto a química e a física" – tornou-se um vexame quando EUGENE WIGNER (EEUU, Nobel de Física em 1963) declarou: " Foi impossível formular as leis da teoria quântica de um modo plenamente consistente sem se fazer referência à consciência."
A escola behaviorista subentendia uma relação causal tão rigorosa que permitia aos psicólogos predizer a resposta a um dado estímulo e, inversamente, especificar o estímulo para uma dada resposta. Uma conseqüência lógica do modelo estímulo-resposta foi a tendência para procurar as causas determinantes de fenômenos psíquicos no mundo externo e não dentro do organismo. Watson aplicou esta abordagem à percepção e também a imagens mentais, pensamentos e emoções. Todos esses fenômenos foram interpretados não como experiências subjetivas, mas como modos implícitos de comportamento em resposta a estímulos externos. E esse foi o erro mais aberrante da ciência psicobiológica.
Hoje a terapia "pura" do comportamento é totalmente orientada para o sintoma. Os sintomas psiquiátricos não são considerados manifestações de distúrbios subjacentes, mas casos isolados de comportamento aprendido de forma desajustada, a ser corrigido por técnicas apropriadas de condicionamento. B.F. SKINNER (EEUU, 1904-90) tem sido o expoente principal da concepção behaviorista nestas últimas três décadas. Desenvolveu o chamado condicionamento operante, em busca de um ser humano que seja condicionado a comportar-se de um modo melhor para si e para a sociedade. Esta é dele: "Necessitamos de uma tecnologia do comportamento... comparável em poder e precisão à tecnologia física e biológica".
A respeito da Psicanálise, deve-se recordar que não se originou da psicologia, mas da psiquiatria. Portanto exemplifica bem o que dissemos em outro parágrafo sobre uma especialidade ter sido concessão da incompetência de outra, no caso a psiquiatria que, derrotada dentro de seus paradigmas para a compreensão da doença, apela para um enfoque psicológico. Convém lembrar que SIGMUND FREUD (Áustria, 1856-1939) era neurologista e, como tal, sempre acalentou a esperança de que "todas as nossas idéias provisórias em psicologia virão a se basear, algum dia, numa subestrutura orgânica". Foi francamente confesso em uma outra ocasião: "Os analistas (...) não podem repudiar sua descendência da ciência exata nem sua ligação com os representantes dela. (...) Os analistas são, no fundo, mecanicistas e materialistas incorrigíveis."
A estreita relação entre a psicanálise e a física clássica torna-se flagrantemente óbvia quando consideramos os quatro conjuntos de conceitos que formam a base da mecânca newtoniana (apontados por CAPRA):
1. Os conceitos de espaço e tempo absolutos, e o de objetos materiais separados movendo-se nesse espaço e interagindo mecanicamente.
2. O conceito de forças fundamentais, essencialmente diferentes da matéria.
3. O conceito de leis fundamentais, descreventdo o movimento e as interações mútuas dos objetos materiais em termos de relações quantitativas.
4. O rigoroso conceito de determinismo e a noção de uma descrição objetiva da natureza, baseada na divisão cartesiana entre matéria e mente.
Assim como ISAAC NEWTON (Grã-Bretanha, 1643-1727) estabeleceu o espaço euclidiano absoluto como a estrutura em que os objetos materiais acham-se dispostos e localizados, também Freud estabeleceu o espaço psicológico como o suporte para as estruturas do "aparelho"mental (Id, Ego e Superego). Sua consulta refletia o ideal clássico da objetividade científica, assim como a concepção espacial e mecanicista da mente, porquanto procurava evitar envolvimento estreito com o paciente e aconselhava seus seguidores a serem "frios como um cirurgião".
Foi por discordar de aspectos conceituais da psicanálise, enredada em denotações reducionistas, que muitos de seus adeptos tornaram-se dissidentes de Freud. CARL GUSTAV JUNG (Suiça, 1875-1961) foi o mais notável de todos eles. Suas tiradas de psicologia analítica são as que talvez mais aproximem esta ciência das derradeiras aquisições da física quântica. Um séquito cada vez maior de profissionais aprofundam as idéias legadas por ele, rumo a uma noção de consciência e entrosamento biocósmico que sintonizam cada vez mais o holismo relacional de ALBERT EINSTEIN (Alemanha, 1879-1955).
Para Jung a mente é como um sistema auto-regulador ou, como diríamos hoje, auto-organizador, e a neurose um processo pelo qual esse sistema tenta superar várias obstruções que o impedem de funcionar como um todo integrado. O papel do terapeuta, em sua opinião, é apoiar esse processo, que ele considerou parte de uma jornada psicológica pelo caminho que leva ao desenvolvimento pessoal ou à "individualização". O processo de individuação, segundo Jung, consiste na integração dos aspectos conscientes e inconscientes de nossa psique, o que envolverá encontros com os arquétipos do inconsciente coletivo e resultará, idealmente, na experiência de um novo centro da personalidade, a que Jung chamou o self. Interessante observar que esta meta de Jung coincide com o ambicioso ideal do medicamento homeopático simillimum, perfeitamente factível, pois este só será realmente simillimum quando o paciente lograr dintinguir seu livre arbítrio, o qual hiberna nos arquétipos de Jung como representação centrípeta da ativação de núcleos patógenos ao longo de sua biografia, escrita esta pela susceptibilidade ingênita do indivíduo e na idiossincrasia às confrontações do cotidiano.
O FIO DA MEADA
"Curar é ajudar o semelhante a ter uma integração harmoniosa de sua personalidade, uma unidade de propósito e ação, de pensamento e vontade que o leve à maturidade psicológica, ao desenvolvimento de sua potencialidade espiritual para liberdade e transcendência". (Tomás Pablo Paschero)
Ao final desta revisão, resta ao leitor nos perguntar: "Mas que relação há entre esta proposta de intercâmbio e citações de perpectivas históricas e filosóficas da psicologia?" Nossa resposta vai implícita em uma humilde confissão: Desconhecemos em quais correntes ou vertentes da psicologia clínica os acadêmicos são treinados durante sua formação. Claro que não é de nossa competência e talvez nem de direito sabê-lo. Mas como esta proposta pode levar a um intercâmbio maior de pacientes entre a psicologia e a homeopatia, o homeopata comprometido com aqueles certamente se preocupará em saber se a psicoterapia encomendada é de um estilo realmente curativa, holística, libertadora, ou é mais uma intervenção meramente supressiva, nos moldes reducionistas. Por isso é interesse do homeopata conhecer as vertentes históricas da psicologia e saber quais ainda vigem em nossos dias. Esta é uma das justificativas razoáveis do intercâmbio, de vantagem para o lado do homeopata.
Sabemos que toda interdisciplinariedade profissional favorece o cliente, em última instância, aliás a mais importante. Vamos então apontar outros benefícios deste intercâmbio, continuando na direção do homeopata:
1. Tornar-se-á um melhor tomador do caso clínico, adquirindo maior acurácia quanto a possíveis significados de um sintoma mental implícito ou explícito. Ficará mais apto a obter sintomas ou informações deliberada ou inconscientemente omitidas. Saberá valorizar ou não determinados sintomas que se enquadrem no âmbito dos mecanismos de defesa do ego.
2. Terá mais segurança e sensatez para abster-se de emitir diretivas simplistas para conflitos de ordem pessoal/familiar que represente algum entrave ao sucesso terapêutico. Em suma, o homeopata deve aprender a não exercer, em consultório, o papel de preparador emocional (mal preparado) "a la Goleman". Deve saber o momento de encaminhar o paciente para um profissional de saúde mental.
Para o lado do psicólogo o intercâmbio poderá trazer alguns proveitos:
1. Eximir-se de emitir explicações simplórias a respeito de significados ou condutas ante sintomas orgânicos que surjam durante um plano psicoterápico. Tais sintomas podem ter relação com a transmutação somática de eventos biopatográficos e podem representar fenômenos prognósticos clínico-dinâmicos dentro de uma terapia, deste uma catarse psicorgânica no sentido da cura, uma metastatização ou materialização de um conflito emocional suprimido, etc. Esse tema promete um profícuo debate entre o psicólogo e o homeopata. Para tanto, este precisa saber que informações aquele recebe sobre prognose durante seu curso.
2. Em quaisquer eventualidades do ítem anterior, o psicólogo estará mais apto a discernir como dar seqüência ao caso ou a quem encaminhá-lo, libertando-se daqueles conceitos reducionistas que o fariam remeter o paciente para especialistas médicos de acordo com o órgão ou sistema acometido. Durante o intercâmbio, ele próprio vai se persuadir que o homeopata unicista é o melhor profissional para interagir com ele e com seu paciente "emperrado" ou complicado. A grande vantagem das terapias holísticas é que conseguem freqüentemente evitar a desintegração do paciente em várias partes espalhadas por consultórios de "especialistas".
Por fim, será sempre útil para o cliente que o homeopata e o psicólogo mantenham, sempre que necessário, um relacionamento profissional de referência e contra-referência. No âmbito da saúde pública, embora talvez seja inadequado que o acadêmico de medicina assista sessões de psicoterapia, a recíproca não é verdadeira: parece possível e proveitoso ao estudante de psicologia freqüentar o ambulatório de homeopatia para filtrar aspectos que lhe sejam úteis na dinâmica do método clínico homeopático.
Para finalizar, deixamos claro saber que algumas dessas colocações podem ter gerado dúvidas ao profissional de psicologia. Da mesma forma, talvez tenhamos cometido erros quanto aos posicionamentos relativos àquela faceta do tema que extrapola nossa formação acadêmica. De qualquer modo, cremos que o objetivo foi atingido: demonstrar evidências claras de estreita afinidade entre ambas as disciplinas e apontar vantagens que a troca de idéias pode proporcionar para os profissionais de ambos os lados. O futuro certamente vai corroborar tais assertivas.
EPÍLOGO
"Uma menina de seis anos foi trazida à consulta devido a uma verruga condilomatosa na pálpebra superior esquerda e também vulvo-vaginite com secreção leucorreica mucosa, apresentando o quadro sintomático de enurese, dores articulares nos joelhos e tornozelos, anorexia e certa frialdade não bem definida. Além disso, a esse quadro, que me fez pensar em Thuya occidentalis, pelas grosseiras manifestações sicóticas, a mãe acrescentou espontaneamente que algum tempo antes da aparição da verruga, cujo tamanho aumentou em poucos dias, a menina mudou de caráter e desenvolveu um intenso medo do escuro, tinha terror de ficar sozinha, não podia dormir com as luzes apagadas e vigiava obsessivamente o fechamento das portas durante a noite. Esta síndrome mental caracterizava o quadro sicótico, de forma que permitia o diagnóstico de Causticum hahnemanni, e uma só dose na potência 200 fez a verruga desprender-se em oito dias e curou simultaneamente os terrores noturnos, a enurese e as dores articulares. "Como se pode explicar a relação entre a ansiedade e a verruga? Donde reside a específica vinculação entre um fator psicodinâmico, como é o medo do escuro, e um fenômeno patológico de neoformação tecidual, ambos vinculados como se este fosse determinado por aquele?
"Com o conceito limitado da fisicoquímica fisiológica isso não tem explicação, e é por isso que a psicologia se acha separada da clínica médica; porém quando se pensa dinamicamente que o miama sicótico é uma exaltação pervertida da função fisiológica da reprodução, pela qual a célula prolifera anarquicamente dando lugar à formação de verrugas, condilomas, tumores e toda classe de neoformação de tecidos e, por outra parte, se admite o fato incontroversível de que essa ativação fisiológica depende do mesmo estímulo vital que biologicamente faz reproduzir a célula e psiquicamente se transforma em instinto, não surpreende que esta menina tenha desenvolvido a angústia, o medo e a neurose obsessiva ante a exaltação sicótica de seu instinto erótico agressivo que projetava como ameaça, defendendo-se com o fechamento das portas e luzes acesas.
"O medicamento homeopático constitucional, aplicado e aguardando-se corretamente sua ação, pode ser a solução do problema biológico, pela qual Freud clamava no curso difícil de um tratamento psicanalítico.
"O problema fundamental da criança, como de todo ser humano, é o de liberar sua força vital, sua própria vis medicatrix, dos conflitos suscitados pela ansiedade psórica e sua agressividade destrutiva, que o entravam para sua maturação psicológica. A lei de cura estabelecida por Hahnemann e formulada por Hering, rege não só a trajetória excêntrica do processo exonerativo, senão também a evolução dinâmica da personalidade psíquica desde o autismo infantil dependente, com sua condição ambivalente de ansiedade e agressão, até a autonomia, a verdadeira liberdade, a maturação psicológica, que implica essencialmente uma atitude dativa de autêntico amor ao próximo desde um plano de independência."
(PASCHERO, T. P. – Homeopatia, 4a ed., Ed. "El Ateneo", Buenos Aires, 1988, pág. 460)
Chapecó, 06 de abril de 2001
Ilma. Dra. FÁTIMA LIVORATTO
M.D. Diretora de Saúde
Secretaria Municipal de Saúde de Chapecó
Permita-me parabenizá-la pelo convênio firmado com o Curso de Psicologia da UNOESC, o qual muito contribuirá para viabilizar a recém-criada Clínica-Escola. Tomei conhecimento do fato esta semana e muito me aprouve tal iniciativa. Apenas para seu conhecimento, estou enviando em anexo uma proposição similar que há algum tempo atrás fizemos à coordenação do mesmo Curso no sentido de intercambiar o aprendizado de Psicologia Clínica com um Ambulatório de Homeopatia Unicista que muito temos nos empenhado para que se instale no SUS. Infelizmente até hoje não obtivemos retorno nem da Secretaria da Saúde e nem da Unoesc. Sugiro a Você, como co-gestora da Saúde, que torne a examinar o projeto originalmente enviado a esta casa pela Associação Médica Homeopática Brasileira, elaborado com severa metodologia e irrefutável demonstração da tríade custo-benefício-aceitação, bem como analise o discurso justificativo que remeti posteriormente como reforço à tese do projeto.
Nunca é demais alertar que o Sistema Único de Saúde corre sério risco de ser sucateado se continuar insistindo nesse vicioso modelo biomédico de assistência.
Sendo o que tenho por ora, resta-me agradecer sua atenção.
Demerval F. da Rocha
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